domingo, 22 de junho de 2008

Em tempos idos...

Em tempos idos, lá pelo ano de 1959, após a 4ª. Classe, grande parte dos alunos em Porto Amélia, viam-se obrigados a deixar de estudar por falta de estabelecimentos de ensino, onde pudessem prosseguir a sua formação académica.
No entanto, ainda que com muitos sacrifícios, alguns dos pais desses alunos, sujeitavam-se à separação dos seus filhos, para lhes darem um futuro mais promissor…
Entre esses alunos, eu fui uma das pessoas que me aventurei a andar de casa em casa, ano após ano, desde a 1ª. Classe até ao 2º. Ano do liceu – 1º.ciclo liceal…já que os restantes estudos, os vim concluir em Penafiel /Portugal.
E como este blog versa o Colégio Liceal de S. Paulo desde os seus primórdios, eu estou a recordar-me e de que maneira, que logo após ter concluído a 4ª. Classe, a aflição dos meus Pais era saber onde me poderiam matricular para prosseguir os meus estudos!
Muitos deles, à falta desses estabelecimentos de ensino, optavam por internar os seus filhos em colégios, em Nampula, Beira ou até Lourenço Marques.
Outros havia, que por falta de posses ou ainda porque não pretendiam ver seus filhos afastados do ambiente familiar, decidiram matriculá-los num pseudo colégio que funcionava no interior do quartel de Porto Amélia, na residência de um antigo Capitão do Exército, capitão esse que era casado com uma mulher que era o diabo em pessoa…
Ele leccionava Ciências e ela, Letras…
Passei pouco tempo, sob esse regime ditatorial…mas como eu me recordo bem desse casal insuportável! O regime era tal, que quando o saudoso Mendonça, possuidor de uma carrinha de 9 lugares, nos deixava frente ao quartel para termos mais um dia de aulas eu começava logo a ter náuseas…e não só!
Certo dia, correu as salas de aula, batendo a todos sem excepção (que o diga a Irene Coelho irmã do “Namarrocolo”), com uma palmatória de pau-preto…só porque não sabíamos o que era o sujeito, o predicado, os complementos directo e indirecto, etc., etc.…
Essa mesma palmatória com que agredia diariamente um makonde que eles tinham destacado da Companhia e que estava desde o romper do sol até que ele se punha no horizonte, talhando com as suas ferramentas, lindas estatuetas em pau-preto e marfim…
Mas ai do desgraçado se alguma não ficava do agrado do casal! Era frequente assistir a um sarau de palmatória, muitas das vezes aplicado pelo próprio capitão!
Isto era presenciado por todos nós, alunos…
Estas e outras cenas, começaram a ser divulgadas, chegando aos ouvidos de quem, graças ao seu empenho, à sua dedicação ao seu amor pelo próximo, resolveu criar um colégio nas antigas instalações da Escola D. Francisco de Almeida.
Bendita a hora que essas Pessoas se empenharam de corpo e alma para que existisse esse colégio! Ainda hoje, digitalizando umas “poucas” fotos para ilustrar o blog…chorei.
Chorei num misto de alegria e tristeza; tristeza por, ao contemplar as fotos, verificar que muitos dos que lá figuram já não se encontram entre nós…. De alegria, porque graças ao Padre Joaquim Antunes Lopes Valente e toda a sua equipa de Professores, eu hoje sou a pessoa que sou, com alguns defeitos mas creio que também com algumas virtudes.
Para ele, que já não está entre nós e para todos os Professores que ao longo do tempo aqui iremos recordando….vai a minha homenagem e a todos eles dedico estas minhas palavras!
BEM HAJAM, por terem feito parte das nossas vidas!

3 comentários:

gotaelbr disse...

Lena,

Contas aqui pedaços de nossas vidas de adolescentes na então Porto Amélia que nem eu sabia ou lembrava já. E creio até que muitos de nós também haviam esquecido. Outros ficam agora a saber porque já encontraram o Colégio pronto e apto a ensinar-nos o caminho da vida...livraram-se desse regime militar inadequado para jovens ainda em formação como nós eramos...Mas o tal Capitão de que falas até recordo bem. Pelo que soube recentemente em Portugal, mora lá pela minha região duriense e está firme como uma rocha em saúde.

Anônimo disse...

Coisa ruim não tem perigo.:)

Leonor B. disse...

olá Lena!
Nunca tinha visto um capitão e a sua mulher a dar aulas, mas deve ter sido devido às circunstâncias de não haver mesmo outra solução na altura.
Tenho pena que principalmente ele se portasse dessa forma!Tinhaéra de dar um bom exemplo como militar que era!
Há gente muito ruim e que pelos vistos não quebra pois ainda vive! Já deve ter uns bons anos de Vida!
Sabes o meu Pai é militar e foi sempre bom Homem em todos os sentidos, desde a sua vida profissional e pessoal! Adoro-o...e respeito-o; é das melhores pessoas que existem na minha família que é bastante numerosa!
Beijão da
Leonor B